sábado, 11 de abril de 2009

Faculdade no Brasil virou shopping center


Artigo: Amandio Luís de Almeida Teixeira Comentários

Quando
paro a pensar sobre a educação superior desse país, vejo-a como um doente
terminal, abandonado sobre uma maca em um corredor de hospital. Foram-se os
tempos em que possuir uma pós-graduação, um mestrado, ser um doutor ou um
professor catedrático era visto com respeito e como sinônimos de competência,
experiência e capacidade de um trabalhador de qualidade, um cientista.

As políticas educacionais, a meu ver, se equivocaram. Todas, independentemente de
governos e partidos, quando resolveram - e nisso todos os governos pós-ditadura
incorreram - democratizar,
massificar, ou "igualar" (por baixo) as oportunidades de acesso ao
terceiro grau. O resultado dessa visão clientelista,
num país que parece confundir democracia com populismo, pode ser muito bem
sintetizado no que observamos no atual governo. Ao mesmo tempo em que o
presidente alardeia sua vaidade e seu orgulho por não ter um diploma, perpetua
e agrava a situação, ao querer sedimentar ainda mais a idéia de que todo mundo
pode e deve ter um diploma universitário.

Já não bastasse a proliferação descontrolada de universidades de "fundo de
quintal", onde o que vale é poder pagar para seu diploma conseguir. Hoje
uma universidade assemelha-se muito mais a um shopping center do que a uma instituição de ensino de qualidade, frequentadas por professores e alunos despreparados. Ao invés de salas de aulas bem montadas, laboratórios, bibliotecas, o que se vê? Lojas, bancos, restaurantes e lazer, parte fundamental dessa estrutura deformada. Parece que em cada esquina há uma
universidade. Que o tal ensino à distância, eliminou de vez a distância entre a
mediocridade e a aptidão natural de cada indivíduo para conquistar uma
profissão de nível superior. Para que tanto diploma? Para que tantos
licenciados, bacharéis e pós-graduados?

Acredito que chamar esse ensino de superior já é um equívoco. Superior só se for pela
quantidade de médicos, engenheiros, advogados, entre tantos outros
profissionais, que são despejados, a cada ano, de forma descontrolada, num
mercado de trabalho já saturado. Profissionais para os quais o diploma é apenas
a ferramenta necessária e legitimadora de seu direito como cidadão a se tornar
um profissional de segunda, numa terra de terceira. Médicos que não sabem
suturar, advogados do crime, engenheiros da demolição do saber.

Ou pior, concurseiros (públicos) profissionais. Não o pobre como alardeia o governo, mas aqueles mais afortunados, inocentes ou não, que sustentam essa famigerada indústria dos
concursos. Indústria essa que movimenta milhões e milhões de reais, feita de
cursinhos especializados, empresas promotoras especializadas (em concursos), o
próprio governo que tem aí uma renda vultosa em taxas de inscrição, os
cartórios que enriquecem ao autenticar tanta papelada desnecessária.

Hoje tudo é especializado. Os professores mal pagos e já engolidos por essa máquina.
Esses que já não ensinam, mas que se especializam em treinar em macetes para
passar. Esses que usam apostilas "obrigatórias" sem conteúdo, que
custam uma fortuna, mas nada mais são do que receitas de bolo, dicas e truques,
provas anteriores, cujo lema é "Aprendam como passar". Parece-me mais
especializadas no "seja esperto!". Não precisa saber, é só se
"preparar"! Preparar para que? Ao final disso tudo o que são esses
concursos? E os famosos cadastros de reserva? Quantos são cancelados, postergados
por anos, e ao final, sem ninguém contratar, voltam a se apresentar ao público?
De quem é a culpa? Perguntem ao nosso sábio presidente...

Pobres tempos esses em que o saber já não importa. Em que a ciência é achincalhada, as
cabeças pensantes decepadas. Poucos, muito poucos, sobreviveram a esse tsunami de diplomas fajutos, muitos comprados, outros tantos falsificados, milhares obtidos pela compra
criminosa de monografias, dissertações e teses. Poucos, muito poucos, de forma
árdua ao estudar, ao se dedicar, anos e anos de suas vidas "desperdiçar", crédulos
cidadãos que em algum momento acharam que isso lhes daria alguma real e honesta
chance de no mercado de trabalho se encaixar.

Uns, mais inteligentes, ou mais lúcidos, vão embora. Fazer carreira, fama e dinheiro
honesto nos países dos lourinhos de olhos azuis e viram celebridades, por
mérito reconhecido é certo, mas ridiculamente aplaudido aqui, pelos mesmos que
se indignam quando alguém ousa pensar. Outros decidem ficar. Por menos
oportunidade, familiar necessidade ou que, por convicção, acham que é onde
devem estar e lutar.

Essa é a minoria de sonhadores onde me incluo. Minoria de esperança persistente, de
valor nunca reconhecido que tanto assusta e incomoda a esse país lulista, de reais valores, desprovido.
Somos nós esses "velhos" com mais de 45 anos a elite pensante? A
burguesia dominante? Ou a absoluta minoria que teima em sobreviver, mesmo que
de forma tão humilhante? Só posso falar por mim.

Essa é minha ficha criminal:

Engenheiro, pós-graduado, mestrado, doutorado, pós-doutorado.

Professor universitário (enquanto agüentei).

Última ocupação: diretor de projeto - BID/Nasa.

Ocupação atual: desempregado, há três anos em casa.

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