segunda-feira, 13 de julho de 2009

Frigoríficos assinam acordo contra desmatamento no Pará

Frigoríficos acusados de colaborar para o desmatamento da Amazônia e o governo do Pará assinaram, após um mês de negociações, termos de ajustamento de conduta com o Ministério Público Federal (MPF). Entre as indústrias que aderiram ao acordo estão dois grandes frigoríficos que atuam no estado, Bertin e Minerva. Outros menores devem assinar em breve.
De acordo com nota divulgada pelo MPF-PA, as empresas que receberam recomendações para suspender contratos de comercialização com os frigoríficos poderão retomar os negócios com a carne do Pará com os acordos. Os frigoríficos também serão retirados das ações civis que tramitam na Justiça Federal e pediam indenizações milionárias.
Os acordos com os frigoríficos prevêem que estes passarão a exigir dos fornecedores a moratória total do desmatamento, o reflorestamento de áreas degradadas e o licenciamento ambiental. Também irão informar a origem da carne aos consumidores e ao MPF-PA, que vai verificar a existência de trabalho escravo, crimes ambientais e grilagem entre os fornecedores. No termo de compromisso entre o governo e o Ministério Público Federal há medidas como a implantação de cadastro informatizado de propriedades rurais e da Guia de Trânsito Animal Eletrônica no prazo de um ano.
De acordo com Daniel César Avelino, procurador da República responsável pelas ações contra as empresas na cadeia produtiva do desmatamento, os empresários devem estar conscientes de que o cumprimento do acordo será fiscalizado rigorosamente. Uma auditoria independente, junto com uma comissão formada por dez procuradores da República, vai fiscalizar anualmente o cumprimento dos acordos, com monitoramento por satélite e vistorias nas propriedades. O governo estadual dará apoio financeiro para a contratação dessa auditoria.
Segundo o MPF, houve uma mudança entre a proposta inicial dos termos de ajustamento de conduta do MPF e o texto final acordado: a substituição da adesão ao Sisbov, o sistema de rastreabilidade da pecuária bovina, pela implantação da GTA eletrônica.
Isso, é claro, é apenas um primeiro passo no sentido de garantir que os produtos consumidos pelos brasileiros estejam livres de crimes sociais e ambientais em seu DNA. Entre os desafios pela frente, está a necessidade do governo federal implantar um sistema gratuito e transparente de rastreabilidade de produtos agropecuários para que o controle social contra desmatadores torne-se parte do cotidiano dos cidadãos.
Relembrar é viverCom base em um rastreamento de cadeias produtivas realizado em parceria com o Ibama, o Ministério Público Federal do Pará iniciou duas dezenas de processos judiciais contra fazendas e frigoríficos, pedindo o pagamento de R$ 2,1 bilhões em indenizações pelos danos ambientais no final de maio. Dezenas de empresas que compraram subprodutos desses frigoríficos receberam notificações em que foram informadas que haviam adquirido insumos obtidos através do desmatamento ilegal da Amazônia. A partir da notificação, deveriam parar de comprar desses fazendeiros e frigoríficos ou passariam à condição de co-responsáveis pelos danos ambientais.
Entre as empresas notificadas estavam varejistas como Carrefour, Wal-Mart, Bompreço (que pertence ao Wal-Mart) e Pão de Açúcar. Entre os frigoríficos processados aparecia um dos maiores do país, o Bertin, que comprou gado de fazendas com crimes ambientais. Entre as fazendas irregulares, nove pertencem a Agropecuária Santa Bárbara, ligada ao banqueiro Daniel Dantas.
Apesar da chiadeira de produtores rurais e das bravatas de seus parlamentares ruralistas, o varejo respondeu à ação. Por exemplo, redes de supermercados, como Wal-Mart, Carrefour e Pão de Açúcar, acataram as recomendações, pressionando ainda mais os frigoríficos. Estima-se que o Bertin tenha amargado perdas de R$ 50 milhões no período.
Para baixar um resumo do acordo do MPF com os frigoríficos, clique aqui.
Para baixar um resumo do acordo do MPF com o governo do Pará, clique aqui.
Para baixar a lista das empresas notificadas que compraram produtos dos frigoríficos, clique aqui.
Para baixar a lista das fazendas e frigoríficos que estão sendo alvos de processos, clique aqui.
Enviado por: sakamoto
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quarta-feira, 1 de julho de 2009

Dificuldades no relacionamento entre sogra e nora

Muitas vezes as duas travam um campo de batalha para conviver

O ato de duas pessoas se conhecerem, namorarem e casarem faz parte do desenvolvimento humano. Porém, muitas vezes o casal é composto por duas pessoas que têm enraizadas em si costumes, tradições, valores e rotinas muito diferentes uma da outra, e são justamente essas diferenças as responsáveis pela grande maioria dos problemas de relacionamento e os conflitos familiares.Alguns casais quando passam a conviver sob o mesmo teto até conseguem estabelecer limites e acordos para que um respeite as idéias e os princípios do outro. O problema é que quando casamos, não casamos apenas com uma pessoa, mas sim com uma família que inclui pai, mãe, irmã, cunhado, cunhada, sogro, sogra e etc.Culturalmente é sabida a dificuldade que muitas noras e sogras têm de se relacionar. Algumas passam a vida trocando farpas, outras não conseguem conversar e conviver no mesmo lugar e há até algumas que abandonam o relacionamento por conta da interferência constante da sogra na vida do casal. Esse problema não é novidade, pois segundo algumas pesquisas realizadas há três décadas a interferência dos sogros era o principal motivo de problemas conjugais.Entre os principais motivos de intrigas e dificuldades nesse relacionamento, pode-se destacar o fato da nora ver a sogra como rival, a mãe ter a sensação de aquela outra mulher está lhe tirando o filho, a disputa pelo poder sobre aquele homem, a dificuldade em aceitar e conviver com as diferenças de opinião, a necessidade de atenção e o ciúme excessivo.A mãe que tem uma forte relação de dependência com seu filho vê o casamento deste como uma forte separação sentimental que, facilmente, se transforma em repulsa ou ciúme para com a nora, que é quem lhe "rouba" o filho. Pode surgir, então, uma tendência, muitas vezes inconsciente, de criticar a nora em todas as suas ações e gestos, multiplicando os conselhos e tentando recolocar o filho sob sua influência.Outro grande motivo de conflito é o fato de o filho sustentar financeiramente a mãe, pois muitas esposas acreditam que seus maridos são explorados, atribuindo a culpa disso às suas sogras.A chegada de um neto é um acontecimento decisivo, pois a nora pode sentir-se despreparada para cuidar de uma criança e procurar o auxilio da sogra, ou então as duas podem disputar quem tem a melhor forma de cuidar e educar uma criança. Nessa fase é necessária muita atenção e cautela para que a mãe não transfira o seu ódio para o filho e a criança comece a evitar a avó. Essa relação pode ficar ainda pior quando ambas necessitam morar na mesma residência, seja por dificuldades financeiras do casal ou pelo fato da sogra não ter condições de morar sozinha. O ideal seria evitar ao máximo morar junto com parentes, para que o relacionamento do casal não se desgaste ou sofra com interferências externas. Mas se a situação é inevitável, o ideal é que a sogra não interfira na vida da nora, evite frases maldosas e em hipótese alguma interfira nas brigas ou discussões do casal. É sabido o quão desgastante é para ambas viver nesse conflito eterno, mas a situação é muito pior para o homem que fica entre a mãe e a esposa o tempo inteiro. O papel do marido/filho é fundamental no desenvolvimento da relação sogra-nora. Cabe a ele saber separar o amor de mãe e o amor de esposa e colocar estas duas mulheres nos seus lugares. O homem não deve dar motivo para que elas entrem em conflito (como por exemplo, contar o que uma diz da outra) e, se isso ocorrer, mesmo que independentemente de sua vontade, ele deve saber lidar com essa situação, tentando melhorá-la através de conversas com ambas e atitudes que demonstrem amor pela esposa e pela mãeMas será que esse relacionamento ruim tem jeito? Os conflitos e problemas podem e devem ser administrados de forma saudável. Se ambas (ou uma das partes) amadurecerem emocionalmente, poderão compreender-se mutuamente e tomarão consciência que não precisam competir, já que cada uma exerce um papel diferente na vida do homem. Provavelmente, este seja um grande desafio para ambas as partes, que necessita ser superado para que haja a construção de uma relação saudável. Milena Lhano é terapeuta floral, grafóloga e iridóloga Para mais informações, entre em contato: (11) 2910-4897 / lhano@uol.com.br /

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AS LÍNGUAS INDÍGENAS E A IDENTIFICAÇÃO DE MAMÍFEROS DA AMAZÔNIA

Gláucia Vieira CÂNDIDO (UEG-GICLI)*
Lincoln Almir AMARANTE RIBEIRO (UFMG-GICLI)**

RESUMO
Este artigo objetiva demonstrar como o conhecimento sobre línguas indígenas sul-americanas pode auxiliar estudiosos de diversas áreas, como a Lingüística, a Antropologia e a Biologia, a identificar animais e plantas da região amazônica boliviana, peruana e brasileira. Como a fauna e a flora dessa região são praticamente as mesmas nos três países, muitas vezes, é possível utilizar essas línguas na interpretação de nomes de animais e plantas não traduzíveis ou de difícil tradução do Português para o Espanhol ou vice-versa. O estudo, inspirado no conhecimento dos autores sobre a língua Shanenawa (Pano), baseia-se em outras três línguas Pano - Kaxinawa, Matsés e Yaminawa -, além do Kulina, da família Arawá, e do Ashaninka, da família Arawák. Excetuando o Shanenawa, todas elas possuem uma característica em comum: são faladas em mais de um país da América do Sul e é isso que permite a identificação de alguns animais mamíferos da Amazônia.

PALAVRAS-CHAVE: Lingüística; Línguas Indígenas; Mamíferos; Amazônia.

INTRODUÇÃO

O estudo sobre línguas indígenas no Brasil, um país que ainda conta com cerca de 180 línguas desse tipo vivas, é bastante limitado. A explicação para o fato de haver, em relação a outras áreas, poucos estudiosos se dedicando à tarefa de descrever e documentar as línguas dos primeiros habitantes de nosso território ainda não está muito clara, mas evidentemente passa por um certo desconhecimento da pluralidade cultural e lingüística existente no país ou por preconceitos seculares contra os aspectos culturais das minorias.
Assim, já não mais nos surpreendemos, quando em conversas a respeito de nosso trabalho sobre as línguas indígenas (com leigos, principalmente), somos abordados com perguntas do tipo: “por que estudar as línguas dos indígenas se, atualmente, existem tão poucos falantes e estes sequer podem nos transmitir conhecimentos que acrescentem algo à nossa tecnologia já bastante avançada?”. Uma resposta didática para essa questão nem sempre é fácil de formular, mas dentro do possível argumentamos que, do ponto de vista lingüístico, esse estudo é importante porque, em geral, como os sons e as gramáticas das línguas indígenas são muito diferentes daqueles das línguas mais conhecidas por nós (as indo-européias), acabamos apreendendo novos sons, às vezes nunca antes registrados, e reconhecendo outras estruturas gramaticais. Para os lingüistas, em níveis mais avançados de pesquisa, o conhecimento aprofundado de uma língua indígena muitas vezes permite a criação de novas teorias sobre a fonética e a gramática (morfologia e sintaxe) das línguas naturais bem como a perspectiva de atestar ou refutar a existência dos chamados universais lingüísticos. Enfim, muitas são as vantagens e as possibilidades de obtenção e mesmo de produção de conhecimento por meio dos estudos sobre as línguas indígenas brasileiras.
No presente artigo, pretendemos reforçar essa conclusão demonstrando que, com um pouco mais de engenho e de investigação, também é possível usar as línguas indígenas em outro propósito bastante útil a determinadas áreas como a Lingüística, a Biologia, a Antropologia, entre outras. Trata-se de sua utilização como um instrumento para auxiliar no esclarecimento de dúvidas sobre a nomenclatura da fauna e da flora em casos específicos como, por exemplo, quando não se verifica correspondência entre as traduções de determinados nomes em uma língua qualquer para outra ou vice-versa. Na América do Sul, onde diversas etnias indígenas habitam áreas de fronteiras entre países que falam línguas distintas (o Português de um lado; o Espanhol, de outro), esse tipo de dúvida costuma ser bastante comum.
Assim, com base em algumas línguas pertencentes a três famílias lingüísticas (Pano, Arawá e Arawák), que são faladas concomitantemente no Brasil, Peru e até mesmo na Bolívia, apresentaremos um pequeno vocabulário de nomes de animais mamíferos da Floresta Amazônica, cuja tradução de seus nomes do Português para o Espanhol ou deste para o Português costuma ser de difícil realização ou nem sempre é possível.

1. O material
1.1. Os dados lingüísticos indígenas

A fim de que o leitor possa se situar melhor no contexto que deu origem ao presente trabalho, descreveremos nesta seção de modo sucinto, mas geral, as famílias lingüísticas Pano, Arawá e Arawák com destaque para as línguas que efetivamente colaboraram para a construção do vocabulário de mamíferos da Amazônia.

1.1.1. A família Pano

A família Pano é constituída por línguas faladas por etnias que ocupam juntamente com povos falantes de outras famílias lingüísticas um vasto território (100 milhões de hectares) de forma aproximadamente quadrangular limitado pelos paralelos 3° S e 14º S e pelos meridianos 72° W e 64° W na região da Floresta Amazônica. Seus representantes habitam as áreas adjacentes aos rios Purus, Juruá, Madeira e seus afluentes. São aproximadamente 40.000 pessoas, sendo 30.000 apenas no Peru, cerca de 8.200 no Brasil e 800, na Bolívia.
Quanto às línguas que compõem a família Pano, a literatura menciona 26 vivas, ou seja, aquelas que ainda são faladas por povos localizados no Brasil, Peru e na Bolívia. A distribuição das línguas nos três países é a seguinte: duas na Bolívia (Chácobo e Pakawara); 12 no Brasil (Arara, Katukina, Kaxarari, Korubo, Kulina, Marubo, Matis, Nawa, Nukini, Poyanáwa, Shanenawa e Yawanawa) e nove no Peru (Amawaka, Iskonawa, Kapanawa, Kashibo-Kakataibo, Mastanawa, Shipibo-Konibo, Sharanawa, Xitonawa, Yoranawa,). Outras duas (o Kaxinawa e o Matsés) são faladas tanto no Brasil como Peru e uma última, o Yaminawa, é falada concomitantemente nos três países que são habitados por povos Pano.
Dentre as línguas Pano, destacamos o Shanenawa, língua que temos pesquisado nos últimos anos e que, de certa maneira, motivou-nos a articular o presente trabalho. Essa língua é falada por uma etnia de mesmo nome composta por cerca de 350 pessoas que se encontram distribuídas em quatro comunidades (Paredão, Cardoso, Nova Vida e Morada Nova) na região norte central do Estado do Acre, à margem esquerda do rio Envira, no Município de Feijó.
As outras línguas Pano que contribuíram para com este estudo são o Kaxinawa, o Matsés e o Yaminawa. A primeira, como já dissemos, é uma língua cujos falantes se dividem entre o território peruano e o brasileiro. A população Kaxinawa está estimada em cerca de 5.000 pessoas. No Peru, essa etnia ocupa a parte extremo-oriental do departamento de Ucayali, próximo à fronteira com o Brasil (Província Purus, distrito Purus) a sudoeste de Puerto Esperanza. Mais especificamente, nas seguintes aldeias: Santa Rey, localizada na margem esquerda (norte) do curso médio do Rio Curanja, afluente esquerdo do Purus, até o oeste de Balta; Curanjillo, na margem direita (sul) do río Curanja, entre a foz deste rio no Alto Purus e o povo Balta; Balta, na margem direita (sul) do rio Curanja e Conta que fica ao sul de Puerto Esperanza, na faixa direita (sul) do rio Purus.
No Brasil, no Estado do Acre, as aldeias Kaxinawa localizam-se nos seguintes municípios: Tarauacá, nas áreas indígenas Colônia Vinte e Sete, Igarapé do Caucho e Kaxinawá do Rio Jordão; Feijó, nas áreas Kaxinawá do Rio Humaitá, Kaxinawá de Nova Olinda e Katukina e Kaxinawá; Manoel Urbano e Sena Madureira, na área Alto Rio Purus; Tarauacá e Cruzeiro do Sul, na área Kaxinawa do Rio Breu.
Quanto aos dados lingüísticos Kaxinawa usados neste estudo, é preciso ressaltar que não houve seleção de uma variante específica da língua, pois consultas a várias fontes não nos revelaram grandes diferenças entre os diversos “falares” Kaxinawá. Assim, para este trabalho, utilizamos os dados fornecidos por Montag (1981).
A língua Matsés, cujos falantes se distribuem entre o Brasil e o Peru, conta com uma população de aproximadamente 3.500 pessoas. No Peru, as aldeias indígenas Matsés estão localizadas no sudeste do Departamento de Loreto, no triângulo formado pelos rios Yavarí, Gálvez e Blanco. Vale salientar que se trata dos mesmos índios denominados Matsés ou Mayoruna brasileiros. No Brasil, os Matsés são encontrados no Estado do Amazonas, mais precisamente, às margens do rio Javari e seus afluentes (zona fronteiriça com a área Mayoruna peruana). As aldeias e suas respectivas localizações são: Lameirão, baixo rio Javari; Lobo, igarapé de mesmo nome; Ituxi, igarapé também de mesmo nome; Marajaí, município de Alvarães.
Finalmente, a língua Yaminawa que, como já frisamos, é falada simultaneamente no Peru, na Bolívia e no Brasil, conta com uma população de mais ou menos 1.250 pessoas. No Peru, as aldeias Yaminawa podem ser encontradas no Departamento de Ucayali, na província Atalaya, na cabeceira do alto Purus. As aldeias e respectivas localidades são as seguintes: Sepahua, no rio Ucayali, distrito de Antonio Raimondi; Sabalo, alto rio Mapuya, afluente direito do Urubamba; Paititi, distrito Tahuania, alto rio Huacapistea, afluente esquerdo do Juruá, ao sul de Puerto Breu.
Na Bolívia, os Yaminawa estão localizados no Departamento de Pando, na província Nicolás Suárez. Suas aldeias localizam-se especificamente às margens do rio Acre, que forma o limite entre a Bolívia e o Brasil, entre Bolpebra (fronteira entre Peru, Bolívia e Brasil) e Cobija, em dois assentamentos: Puerto Yaminahua e Pozón e às margens do rio Tahuamanu, que corre paralelo ao Acre.
No Brasil, os Yaminawa são encontrados no Estado do Acre às margens dos rios Chandless, Bajé, Tajo, Humaitá e na Cabeceira do Rio Acre, Município de Assis Brasil; no Igarapé Preto, no Município de Cruzeiro do Sul; no Mamoadate, Município de Assis Brasil e Sena Madureira e no rio Gregório, Município de Tarauacá.
Em relação à origem dos dados das línguas Yaminawa e Matsés que foram utilizados neste trabalho, para ambos os casos, recorremos ao exposto em Todd (1975). Como no caso do Kaxinawá, não selecionamos uma variante específica de cada língua por não reconhecermos diferenças entre os vários “falares” Yaminawa e Matsés, respectivamente.

1.1.2. A família Arawá

A pequena família lingüística Arawá é constituída por línguas consideradas formalmente muito semelhantes entre si. Por isso, embora não seja ponto pacífico, cogita-se que essas línguas são, na realidade, um sub-grupo da família Arawák. Essa é, entretanto, uma questão que estudos comparativos mais aprofundados devem resolver brevemente. A família Arawá é composta pelas línguas Banawa-Jafi, Deni, Jarawara, Kanamanti, Paumari, Yamamandi, Zuruahé, Kulina e Arawá, sendo esta última extinta em 1880. Todas elas, exceto o Kulina, são faladas exclusivamente no Estado do Amazonas.
Dentro dos propósitos deste trabalho, destacamos a língua Kulina falada por uma etnia de mesmo nome e que, a exemplo da maioria das outras línguas focalizada neste artigo, também tem falantes além da fronteira brasileira.
A denominação Kulina, segundo a literatura, foi atribuída a esse povo pelos não indígenas, por isso, é terminantemente rejeitada pela etnia que prefere se autodenominar Madija, palavra esta que em sua língua significa ‘povo’, ‘gente’. Assim, considerando a vontade da etnia, optamos por designá-los Madija, porém, em se tratando de sua língua, procedemos tal como consta na maioria das fontes bibliográficas consultadas e a ela nos referiremos sempre como Kulina.
Sua população é da ordem de 2.500 pessoas, as quais vivem em aldeias situadas nas bacias dos rios Juruá e Purus na Amazônia ocidental brasileira e peruana. No Brasil, os Madija/Kulina estão situados em dois Estados, Acre e Amazonas. No primeiro, eles são localizados nos municípios de Manoel Urbano e Sena Madureira, na área indígena Alto do Rio Purus e, ainda, em Feijó, na área Kulina do Alto Envira, no Igarapé do Anjo. No Estado do Amazonas, podem ser encontrados no município de Envira nas áreas Cacau do Tarauacá e Kulina do Rio Acurauá; no Município de Pauini, habitam a área indígena Camadeni; nos Municípios de Itamarati e Tapauá, estão na área indígena Deni; no Município de Juruá, na área indígena de mesmo nome; nos Municípios de Envira, Eurunepé e Ipixuna, na área indígena Kulina do Médio Juruá e, ainda, na área do Médio Jutaí, na margem esquerda do rio de mesmo nome, próximo ao igarapé São Francisco; nos Municípios Fonte Boa, Juruá e Carauari, na área indígena do Rio Juruá e, finalmente, alguns Madija/Kulina podem ser encontrados (dispersos entre outras etnias da região) na área indígena Vale do Javari.
No Peru, os Madija/Kulina se acham distribuídos no departamento de Ucayali, província Purus, distrito de Purus: povos do Zapote (rio acima de Puerto Esperanza e rio abaixo da desembocadura do Curanjá e em São Bernardo, entre Puerto Esperanza e a fronteira com o Brasil.
Atender aos propósitos de nosso estudo, usamos os dados lingüísticos Kulina obtidos por Monserrat & Silva (1984) junto aos falantes do Igarapé do Anjo, no Município de Feijó, local em que encontramos muitos representantes dessa etnia que teriam fugido do Peru na época dos confrontos do Sendero Luminoso com a ditadura do governo Fujimori.




1.1.3. A família Arawák

A família Arawák é bastante extensa, seja em localização geográfica, seja em número de componentes. As línguas dessa família são faladas em uma região que vai da América Central, no Caribe, até as cabeceiras do rio Paraguai, na América do Sul.
Como procedemos nos casos anteriores, dentre as línguas Arawák, destacamos o Asheninka, que é falada concomitantemente nos territórios brasileiro e peruano. O povo Ashaninka é denominado pelos não índios como Kampa, mas como sói ocorrer entre os indígenas, estes não aceitam bem essa denominação, pois a consideram pejorativa. Quanto à língua Ashaninka, muitas vezes esta é confundida na literatura com seus vários dialetos conhecidos como Asheninka. Neste caso, em respeito aos indígenas, optamos por chamar sua língua de Ashaninka. No entanto, neste trabalho utilizamos os dados que, segundo a literatura lingüística não indígena, pertencem à variante Asheninka do Ucayali. É preciso ressaltar que, na realidade, isso não é assunto para este trabalho, mas urge que não deixemos certas confusões sem um esclarecimento, ao qual pretendemos nos dedicar em um trabalho futuro.
No Brasil, a população Ashaninka é de 813 pessoas que ocupam uma área de 341.987 hectares no vale do Rio Juruá, no Estado do Acre, e as quais estão distribuídas em cinco áreas indígenas, sendo três compartilhadas com povos de outras etnias. No município de Feijó, estão localizadas as áreas indígenas Jaminawa do Rio Envira, Kampa e, ainda, os chamados isolados do Rio Envira. No município de Tarauacá, encontramos a área indígena Kampa do Igarapé Primavera e, finalmente, no município de Marechal Thaumaturgo, estão as áreas Kampa do Rio Amônia Kaxinawá-Ashaninka do Rio Breu.
No Peru, há notícias de que existam cinco dialetos falados por etnias Asheninka: o do Rio Pichis, o do rio Apurucayali, o do alto Ucayalie e alto Juruá, o do alto Perene e o do Gran Pajonal. Mais uma vez atendendo aos objetivos deste estudo, a variedade dialetal que nos interessa é a falada na bacia do rio Ucayali, na qual se encontram várias aldeias começando no norte com o Rio Abujao, ao sudeste da cidade de Pucallpa, área compartilhada com outros grupos étnicos como os Piro (também da família Arawák) e os Shipibo, Yaminawa e Amawaca (da família Pano). Os dados Ashaninka aqui referidos foram retirados de Payne (1980).

1.2. Dados dos mamíferos conforme convenções da Biologia

As informações sobre os mamíferos no âmbito da ciência biológica foram obtidas em Infonatura (2006). Tratam-se basicamente dos nomes científicos das espécies animais e ainda registros das datas e nomes dos pesquisadores que primeiramente localizaram e descreveram essas espécies.

2. A metodologia

Como antecipamos nos itens anteriores, o critério usado na seleção das línguas usadas na constituição do vocabulário é essencialmente o fato de quase todas elas, exceto uma , serem faladas por povos que habitam concomitantemente dois ou mais países sul-americanos. Recapitulando, as línguas Pano Kaxinawa e Matsés têm representantes tanto no lado brasileiro como no peruano, já o Yamináwa possui falantes habitando o Brasil, o Peru e também a Bolívia. O Kulina, língua representante da família Arawá, tem falantes habitando o território brasileiro e o peruano, o mesmo ocorrendo com a língua Kampa-Ashaninka da família Arawák.
Como todas essas línguas são faladas na região amazônica e o ambiente ecológico é o mesmo nos três países envolvidos, ocorre que as etnias acabam expostas a uma flora e uma fauna em comum. Neste último caso, os mamíferos, em particular, são praticamente os mesmos nas três nações. Por isso, causa-nos certo estranhamento que, por exemplo, um brasileiro, ao pesquisar línguas indígenas amazônicas, descritas por peruanos ou bolivianos, depare-se com nomes completamente desconhecidos de mamíferos, tais como sachavaca, ronsoco, oso hormiguero, entre outros. Essa questão é mais complexa quando não se é possível encontrar alguns nomes de mamíferos nem mesmo em dicionários Português-Espanhol, inclusive, o mais famoso: o da Academia Royal Espanhola. Contudo, esse tipo de dúvida tem sido muito comum entre os lingüistas, antropólogos e biólogos. Portanto, é nesse âmbito que entra um conhecimento razoável das línguas indígenas faladas na região amazônica, como é o caso dos seis exemplares que estão norteando este estudo, conforme pretendemos mostrar nas próximas seções. Assim, justificada a seleção do material/objeto de trabalho (as línguas), passemos à metodologia adotada na obtenção do corpus utilizado em nosso trabalho.
O procedimento de campo consistiu inicialmente na apresentação a um de colaborador, falante da língua Shanenawa, a fotografia de um animal mamífero do qual tínhamos conhecimento do nome científico da espécie. O objetivo era obter de nosso colaborador o nome da espécie em sua língua materna. Isso feito, fizemos um exame dos dados de que dispúnhamos das outras cinco línguas indígenas em busca do equivalente para que, dessa forma, pudéssemos determinar de forma ampla os dados. É preciso ressaltar que devido ao fato de muitas espécies serem próximas umas das outras e apresentarem nas fotografias uma imagem que pudesse causar dúvida sobre qual espécie estava se tratando, alguns casos ainda demonstram imprecisão quanto à espécie. Todavia, pelo menos no que tange ao quesito gênero, estamos certos quanto à sua precisão.
Um último recurso que nos auxiliou nesta empreitada está ligado ao fato de muitos viajantes e exploradores terem usado as línguas Pano para dar nomes aos mamíferos em suas publicações oficiais. Ao nosso ver, nas publicações produzidas por estudiosos que não são especialistas em mamalogia ou que não viram pessoalmente os animais mamíferos referenciados, é o nome na língua Pano que possui maior chance de ser considerado o correto do que aquele comumente utilizado (europeu ou científico) nas publicações específicas.

2.1. A representação dos dados

Os sistemas fonéticos das línguas indígenas da América do Sul apresentam, em geral, algumas diferenças em relação àqueles utilizados por falantes de línguas indo-européias. Além disso, os sons indígenas podem variar muito de uma língua para outra, de modo que uma representação exata da pronúncia de cada língua pode se tornar impossível sem uma longa discussão e o auxílio de um bom número de símbolos tipográficos diferentes.
Neste trabalho, adotamos um alfabeto que contempla os 32 fonemas encontrados nas seis línguas citadas aqui. Os símbolos usados correspondem àqueles propostos pela Associação Internacional de Fonética no seu alfabeto, ou seja, o IPA (International Phonetic Alphabet), e com o qual o leitor versado em lingüística já está acostumado. Na Tabela I, a seguir, são dados os símbolos fonéticos e os respectivos grafemas correspondentes:

SÍMBOLO FONÉTICO (IPA)
GRAFEMA SÍMBOLO FONÉTICO (IPA)
GRAFEMA
a a ph pp
b b k qu
k c kh qqu
kh cc r r
d d ts s
e e tsh ss
 ë t t
F f th tt
G g u u
 h v v
i i  sh
h j  x
m m j y
n n w hu
o o tz tz
p p ds ds

Tabela I: Alfabeto fonético usado na representação dos sons das línguas indígenas citadas neste artigo.

Ressalte-se que, levando-se em conta o fato de que a maioria dos dados foi retirada de fontes bibliográficas de origens peruanas, pareceu-nos mais sensato tentar ou pelo menos tentar manter o alfabeto exposto na Tabela I o mais próximo possível daqueles usados nas referidas fontes.

3. O vocabulário de mamíferos da Amazônia

A estruturação do vocabulário Espanhol-Português e as línguas indígenas Shanenawa, Kaxinawa, Matsés, Yaminawa, Kulina e Ashaninka de nomes de animais mamíferos da Amazônia é a seguinte: em ordem alfabética, são dadas as principais ordens de mamíferos da Amazônia. Algumas ordens são constituídas por apenas um animal, outras por vários. A propósito, é importante salientar que o vocabulário não está completo e tampouco tem intenção de o ser no sentido quantitativo de ordens e de animais. A idéia é apenas usar alguns exemplos, certamente, os mais comuns de nomes já detectados por nós ou outros lingüistas em trabalhos de comparação de língua indígenas faladas no Brasil, na Bolívia e no Peru. Trabalhos mais amplos deverão surgir naturalmente na medida que se fizerem necessárias traduções de nomes da fauna e da flora amazônica.
Cada ordem de mamíferos está organizada em quadros organizados em numeração arábica (de 1 a 8) que contemplam na horizontal os animais que dela fazem parte. Os quadros estão estruturados da seguinte forma: na primeira linha, é dada a identificação do animal mamífero, a qual foi feita por meio do nome científico taxionômico da espécie; na segunda linha, conforme convenção da Biologia, aparece o nome do estudioso que primeiramente descreveu a espécie; na terceira e quarta linhas, figuram os nomes populares (vulgares) dos animais, em Espanhol e Português, respectivamente; na quinta linha, o nome do animal na língua Shanenawa e, nas demais linhas, os nomes que o animal recebe nas outras cinco línguas indígenas, ou seja, Kaxinawa, Matsés, Yaminawa, Kulina e Ashaninka. A seguir, apresentamos os quadros de ordens de mamíferos da Amazônia.
ORDEM: artiodactyla
NOME CIENTÍFICO Mazana americana Tayassu pecari Tayassu taccaju
AUTORIDADE Linnaeus, 1777 Link, 1795 Linnaeus, 1758
NOME ESPANHOL venado colorado huangana sajino
NOME PORTUGUÊS veado mateiro queixada catitu
SHANENAWA txashu yahua unu
KAXINAWA txashu yahua kuin junu jahua
MATSÉS senad shëcten amë shëcten
YAMINAWA txashu fishata unu
KULINA bado hidsama anobedsu
ASHANINKA maniro piratsi shintori
Quadro 1: Mamíferos da ordem Artiodactyla.
ORDEM: carnivora
NOME CIENTÍFICO Nasua nasua Lontra longicaudis Cerdocyon thous Leopardus pardalis Panthera onca
AUTORIDADE Linnaeus, 1766 Olfers, 1818 Linnaeus, 1758 Linnaeus, 1758 Linnaeus, 1758
NOME ESPANHOL achuni nutria zorro tigrillo tigre
NOME PORTUGUÊS quati lontra raposa jaguatirica onça
SHANENAWA xixi fusi niikaman yumain
KAXINAWA xixi jene inu niikaman maxi inu inu kënëya
MATSÉS dësta bosen bëdimpi bëdi
YAMINAWA xixi fusi niipashta
KULINA dsotomi ssabira dsohuadsohua cajahuiri dsomaji
ASHANINKA capeshi parari otsidziniro matsontsori maniti
Quadro 2: Mamíferos da ordem Carnívora.


ORDEM: chiroptera
NOME CIENTÍFICO Todos os gêneros e espécies
AUTORIDADE várias
NOME ESPANHOL murciélago
NOME PORTUGUÊS morcego
SHANENAWA kaxi
KAXINAWA kaxi
MATSÉS kaxi
YAMINAWA kaxi
KULINA kuaisban
ASHANINKA piiri
Quadro 3: Mamíferos da ordem Chiroptera.

ORDEM: marsupialia
NOME CIENTÍFICO Didelphis marsupialis
AUTORIDADE Linnaeus, 1758
NOME ESPANHOL zarigüeya
NOME PORTUGUÊS gambá
SHANENAWA mashu
KAXINAWA maxu
MATSÉS txeca
YAMINAWA mashu
KULINA dsodo
ASHANINKA sagaari
Quadro 4: Mamíferos da ordem Marsupialia.

ORDEM: perissodactyla
NOME CIENTÍFICO Tapirus terrestris
AUTORIDADE Linnaeus, 1758
NOME ESPANHOL sachavaca
NOME PORTUGUÊS anta
SHANENAWA ahua
KAXINAWA ahua
MATSÉS abi
YAMINAWA ahua
KULINA quemari
ASHANINKA shaani
Quadro 5: Mamíferos da ordem Perissodactyla.

ORDEM: primata
NOME
CIENTÍFICO Alouatta seniculus Ateles chamek Cebus apella Lagotrix logothicha Aptus vociferans Saimiri sciureus
AUTORIDADE Linnaeus, 1766 Humboldt, 1812 Linnaeus, 1758 Linnaeu, 1758 Linnaeus, 1758 Linnaeus, 1758
NOME ESPANHOL mono aullador mono negro capuchino choro mono nocturno mono ardilla
NOME PORTUGUÊS macaco guariba macaco-aranha macaco-prego macaco-
-barrigudo macaco-da-noite macaco-de-cheiro
SHANENAWA ru isu xinu isu curu riru fasa
KAXINAWA du isu xinu isu kudu xipi basa
MATSÉS achu bëchun chëshë txima poishto riru tsama
YAMINAWA ruu isu xinu isu curu riru fasa
KULINA dsadsio jomo dsobiji huappa mobi
ASHANINKA keniri shitoni peari pitoni
Quadro 6: Mamíferos da ordem Primata.

ORDEM: rodentia
NOME CIENTÍFICO Sciurus spadiceus Hydrochoerus hydrochoeris Cuniculus paca Dasyprocta puctata Coendou prehesilis
AUTORIDADE Olfers,
1818 Linnaeus, 1766 Linnaeus,
1766 Gray,
1842 Linnaeus,
1758
NOME ESPANHOL ardilla ronsoco majaz aguti puercoespin
NOME PORTUGUÊS esquilo,
quatipuru capivara paca cutia porco-espinho
SHANENAWA capa aman anu mari isa
KAXINAWA capa amën anu mari isa
MATSÉS capa memupait tambis sise
YAMINAWA capa amën adu mari isa
KULINA macahari jacohuaro ccamanohui ssinama misse
ASHANINKA meiri iveto samani shavo kitairiki
Quadro 7: Mamíferos da ordem Rodentia.

ORDEM: XENARTHRA
NOME CIENTÍFICO Mimecophaga tridactyla Bradypus tridactylus Dasypus novemcinctus
AUTORIDADE Linnaeus, 1758 Linnaeus, 1758 Linnaeus, 1758
NOME ESPANHOL oso hormiguero peresozo de
três dedos carachupa
NOME PORTUGUÊS tamanduá bandeira preguiça de
três dedos tatu-galinha
SHANENAWA shaë nain yahuixi
KAXINAWA xaë nain yaix
MATSÉS shaë shuinte tsahues
YAMINAWA shaë txoki kashta
KULINA jodshua maira huaricodse
ASHANINKA shaani tootori etzi
Quadro 8: Mamíferos da ordem Xenarthra.

À guisa de síntese do vocabulário, vejamos três nomes de mamíferos na língua espanhola que particularmente nos interessam por terem sido os primeiros a nos chamar a atenção para as dificuldades em se traduzir alguns nomes de animais comuns na fronteira entre Brasil, Peru e Bolívia para o Português. São eles: sachavaca (ordem Perissodactyla, Quadro 5), ronsoco (ordem Rodentia, Quadro 7) e oso hormiguero (ordem Xenarthra, Quadro 8). Por não os ter reconhecido na língua espanhola, necessitamos recorrer a dicionários Português-Espanhol ou vice-versa. Contudo, nenhum dos três vocábulos consta nos dicionários, nem mesmo nos mais famosos, como já dissemos anteriormente. Então, como saber seus significados, seus referentes exatos? Para obter algumas respostas, conforme já mencionamos, nosso conhecimento sobre a língua indígena Shanenawa é fundamental. Afinal, apenas sabendo o nome dos mamíferos nessa língua, tivemos condições de também o saber em outras línguas da família Pano, como é o caso do Kaxinawa, haja vista que os nomes dos animais e plantas nas línguas indígenas costumam ser formalmente parecidos. Muitas vezes, encontramos bibliografia lingüística sobre o Kaxinawa escrita em língua espanhola. Nesses textos, comumente, nos deparamos com glosas (traduções da língua indígena para o Espanhol) de nomes de animais para as quais, mesmo com o auxílio dos dicionários, não conseguíamos o significado. Esse foi o caso das palavras sachavaca, ronsoco, oso hormiguero. Todavia, o fato de alguns Kaxinawa viverem no Peru, onde são bilíngües em sua língua materna e em Espanhol, e outros viverem no Brasil, onde são bilíngües em Português e em Kaxinawa, acabou facilitando a tarefa de tradução desses três nomes de mamíferos.
De acordo com o Quadro 5, a palavra ahua, em Kaxinawa, significa ‘anta’ tanto para os falantes que vivem do lado brasileiro como para os que vivem do lado peruano. Logo, podemos deduzir que sachavaca é o nome dado pelos peruanos à “anta”. O vocábulo espanhol ronsoco é outro cujo significado em Português foi obtido por meio da língua Kaxinawa. Retomemos o Quadro 7 em que veremos que, nessa língua indígena, o mamífero ‘capivara’ leva o nome amën e esta é a mesma palavra utilizada pelos falantes do Peru e do Brasil. Quando se pergunta a um Kaxinawa do Peru o que significa em Espanhol a palavra amën, a resposta é ronsoco. Daí deduzirmos que ronsoco significa ‘capivara’. Esse processo de dedução se repete com a palavra oso hormiguero, cujo significado em Português, ‘tamanduá’, também pode ser deduzido a partir da língua Kaxinawa, conforme a leitura do Quadro 8.

CONCLUSÃO

Neste trabalho, demonstramos como é possível utilizar nossos conhecimentos (ainda que parciais) sobre uma ou mais línguas indígenas sul-americanas como uma espécie de intérprete entre o Português e o Espanhol para traduzir os chamados termos regionalistas que designam elementos da fauna e da flora amazônicas.
Limitando-nos à classe dos mamíferos da Amazônia brasileira, peruana e boliviana, mostramos que, como existem etnias indígenas que ocupam a área fronteiriça do Brasil e da Bolívia ou do Brasil e do Peru, é natural que essas etnias sejam formadas por pessoas bilíngües na língua materna e naquela falada no país em que essas pessoas residem. Um exemplo é o do povo Kaxinawá que possui aldeias na fronteira do Peru com o Brasil. No lado peruano, esses índios falam Kaxinawa e Espanhol; no lado brasileiro, Kaxinawa e Português. Devido à proximidade geográfica entre as aldeias do Peru e do Brasil, os falantes Kaxinawa costumam freqüentar reciprocamente as comunidades dos dois países compartilhando, dessa maneira, o mesmo léxico. Ademais, do ponto de vista lingüístico, é praticamente impossível se falar que seus “falares” se transformaram em dialetos.
Isso corrobora a hipótese de que, nos dois lados da fronteira, animais ou plantas, que são comuns aos dois países por estarem em um ambiente ecológico idêntico, sejam referidos por uma mesma palavra na língua indígena. Em geral, contudo, em Espanhol e Português (que ironia: duas línguas indo-européias!) as palavras que designam mamíferos de uma mesma região (no caso, a Amazônia peruana e brasileira) não são as mesmas e, muitas vezes, sequer se assemelham formalmente. Nessas situações, a língua indígena acaba servindo como tradutora para as duas línguas latinas.
Foi usando essa metodologia que determinamos o nome dos principais mamíferos da região amazônica brasileira, peruana e boliviana. Os resultados da aplicação desse método foram sintetizados em forma de um mini-vocabulário composto por oito ordens de mamíferos. Acreditamos, porém, que futuramente esse número de ordens e de espécies pode aumentar não apenas no caso dos mamíferos, mas também de outros animais como aves, peixes, répteis, entre outros, além de plantas de diversas espécies, o que resultaria em um vocabulário completo da fauna e da flora da região amazônica.
Nesse sentido, acreditamos poder contribuir para com as pesquisas não apenas de lingüistas que, às vezes, se encontram em dificuldades para identificar animais e plantas da Amazônia no Brasil, no Peru e na Bolívia, mas também de estudiosos de outras áreas como a Antropologia e a Biologia.
ABSTRACT
CÂNDIDO, Gláucia Vieira; RIBEIRO, Lincoln Almir Amarante. Brazilian native languages and Amazonian mammals identification. Temporis[ação], Goiás, v. 1, n° 9, Jan/Dez 2007.

This work aims to describe how one South American Native langauge can help studious of several areas, as Linguistics, Anthropology and Biology, to identify animal and plant species of the Peruvian, Bolivian and Brazilian Amazonia. As the fauna and flora on both sides, Brazil, Peru and Bolivia, are the same, many times it is possible to use this language to discover the name of animals and plants not translatable between Portuguese and Spanish and vice versa. The study which is founded in the knowledge that authors have of Shanenawa language (Pano), are based in other three Pano languages - Kaxinawá, Matsés and Yaminawa, besides Kulina of the Arawá Family and Ashaninka of the Arawak Family. Excepting Shanenawa, all these languages possess a characteristic in common: they are spoken in more than one South American country and is just this characteristics that allows the identification of some mammals of the Amazonia.

Keywords: Anthropoligical Linguistics; Indigenous Languages; Mammals; Amazonian.


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