FREI BETO
27 DE MAIO 2009
É TAUTOLÓGICO falar em falta de
ética no Congresso Nacional. Os escândalos se sucedem, do deputado que está
"se lixando" para a opinião pública aos funcionários do Senado que, a
exemplo de notórios senadores, ostentam um padrão de vida muito superior a seus
vencimentos e à renda declarada.
Felizmente, há exceções. Lástima que a indignação e o protesto de congressistas
íntegros tenham pouca ressonância nas ruas. Em geral, noticiam-se a farra de
passagens aéreas, os castelos mirabolantes, as mansões paradisíacas. Poucos
tomam conhecimento da coerência de congressistas incorruptíveis.
A corrupção decorre da falta de caráter. Esta se manifesta, de modo especial,
quando a pessoa se vê investida de uma função de poder, do prefeito que se
apropria dos recursos da merenda escolar a congressistas que se julgam no
direito de pagar, com dinheiro público, o salário de sua empregada doméstica.
Como dar um basta em tanta maracutaia? Difícil. O ser
humano padece de duas limitações insuperáveis: defeito de fabricação e prazo de
validade. É o que a Bíblia chama de "pecado original". Sempre haverá
homens e mulheres desprovidos de caráter, de princípios éticos, dispostos a não
perder a primeira oportunidade de enriquecimento ilícito. A solução é criar,
via profunda reforma política, instituições que inibam os corruptos e
mecanismos de controle popular. Em suma, tornar a nossa democracia, meramente delegativa, mais representativa e, sobretudo,
participativa.
Enquanto isso não acontece, sugiro que convidem, para ministrar um curso de
ética no Congresso Nacional, Suas Excelências José Gomes da Costa, Rodrigo
Botelho, Francisco Basílio Cavalcanti, Clélia Machado, Sebastião Breta e Fagner Tamborim.
José Gomes da Costa é gari da Prefeitura de São Paulo. Ganha R$ 600 por mês.
Vinte e seis vezes menos que um deputado federal. Com esse salário, sustenta a
si e três filhos. Dia 18 de maio último, ao varrer a rua, encontrou
um cheque no valor de R$ 2.514,95. José precisaria trabalhar quatro meses, sem
nenhuma despesa, para acumular essa quantia. Procurou uma agência do banco e devolveu
o cheque. Motivo: vergonha na cara.
Gari, Rodrigo Botelho encontrou, em 26 de maio do ano passado, durante
campeonato mundial de tênis de mesa, no Rio, mochila com R$ 3 mil
do dono nos documentos, chamou-o pelo microfone e devolveu. Rodrigo é normal,
tem caráter.
Francisco Basílio Cavalcante, faxineiro do aeroporto de Brasília, pai de cinco
filhos, ganha salário mínimo. No dia 10 de março de 2004, encontrou uma bolsa
de couro no banheiro do aeroporto. Dentro, US$ 10 mil. Se fosse juntar o
salário que ganhava, sem gastar um só centavo, levaria (à época) mais de sete
anos para obter igual soma. Francisco declarou: "Tem que ser assim. O que
não é nosso precisa ser devolvido. Não pode trazer felicidade".
Clélia Machado, 29, é auxiliar de serviços gerais e faz bico como manicure. Sozinha, cria duas filhas, uma de sete anos,
outra de nove. Sua renda mensal não chega a R$ 550. Todos os dias ela faz a
faxina do banheiro do posto da Polícia Rodoviária Federal em Seberi (RS). A 11 de março de 2008, encontrou, junto à
privada, um pé de meia enrolado em papel higiênico.
Dentro, US$ 6.715. Clélia entregou os dólares aos policiais.
Entrevistada, disse: "Bem que podia ser meu de verdade. Mas já que não me
pertencia, devolvi. Era o certo a fazer". O gari Sebastião Breta, 43, da Prefeitura de Cariacica
(ES), devolveu os R$ 12.366 mil que achou num malote no lixo. O nome do homem
que fora roubado estava gravado numa etiqueta. Sebastião ganha salário mínimo.
Indagado se pensou em ficar com o dinheiro, disse: "Nunca. Desde a
primeira vez que vi, sabia que devia devolver. Quando não consigo pagar as
minhas contas, fico doido, pensava o tempo todo como estaria o dono do
dinheiro, imaginava que ele também não podia pagar suas contas porque tinha perdido
tudo. Eu e minha mulher não conseguiríamos dormir à noite. Acho esquisito pegar
o que não é da gente".
Fagner Tamborim, 17 anos, entregador de jornais na cidade de Pirajuí, a
R$ 90 por mês. Enquanto pedalava sua bicicleta, encontrou na rua um malote com
R$ 6 mil. Devolveu-o ao dono. "Vi que tinha muito dinheiro e cheques.
Levei pra minha mãe, que ligou para o banco."
O melhor do Brasil é o brasileiro, não necessariamente nossos congressistas.



